Depois de terminar a recruta, por sorte fiquei em casa durante o Natal e Ano Novo.
Jurei bandeira a 21 de Dezembro (se não estou em erro) e só me apresentei na Ota a 3 de Janeiro de 1991.
Foi como que uma chegada a matar na Ota. 2 dias antes do fim de semana que preparou uma escala rotativa de reforço de segurança para a Base, assim como apresentação de instrutores e horários.
Tinha acontecido a invasão do Koweit por parte do Iraque e na BA2 já exista um alerta.
Comecei logo nesse fim de semana de serviço.
Foi o começo de uma nova e “dolorosa” experiência, não ir a casa. O factor casa tinha muita importância para mim e ficar lá logo no primeiro fim de semana sem se estar á espera foi como que um choque, um castigo.
Após uma formatura, fomos conhecer a camarata. Já não me lembro do edificio, mas calhei no 1º quarto do 1º piso, logo a seguir á sala de estudo. 2º beliche, cama superior. Curiosamente sempre calhei “por cima”.
1º dia para ter cama e roupa preparada, segundo dia para recolher livros e saber horários.
Vinha aí muitas horas de “Morse”.
Após o 2º dia, formatura para todos os outros irem-se embora e para mim assim como outros começava o castigo. Calhei de reforço num posto junto ao bairro dos oficiais, era deixado lá de jipe.
Ao longo do curso, experimentei outros 2 postos que davam para ir até lá a pé. Muito frio apanhei eu nessas noites.
O curso em si, foi felizmente para mim do melhor que podia ter acontecido. Cerca de 8 meses de preparação com uma boa equipa de instrutores. Apenas não gostava de “um” 2Sarg Dias. Dava-me morse entre outra formação tecnica e não sei hoje bem porquê mas não gostava dele. Enfim, quase todo o grupo não gostava dele, mas uns anos mais tarde apanhei-o em Alverca e não tinha nada a ver. Completamente diferente.
Talvez por estar a dar formação e ser 2Sarg aquilo o prejudicasse no feitio.
Por muito que eu queira, não vou colocar aqui o que fiz em cerca de 8 meses de curso, no entanto apenas vou salientar a camaradagem que saiu dali.
Em Janeiro juntaram-se cerca de 20 recrutas para tirar um curso, em que a maioria não se conhecia. No final sairam 16 com saudades dos que não conseguiram terminar.
Desde 3 Alentejanos a 1 Mirandês, passando por um “Beto” e um “pintas” da linha até um “Maluco” já não me lembro de onde. (poderia ir ao sotão procurar, mas não tenho paciência nem tempo).
Felizmente dediquei-me ao curso de corpo e alma e só passei graças ás notas iniciais que tirei a morse.
A média final era feita com base em todos os teste que iam sendo feitos ao longo das aulas e o morse acompanhava-nos durante todo o curso. Outras áreas eram dadas em 15 dias ou 2 meses, mas o morse era do inicio ao fim, cerca de 6 horas por semana. Se não estou em erro, apenas á sexta é que não tinhamos morse.
Mas graças a 2 notas de 20 (vinte) valores iniciais a minha média no morse ficou em 9 (em matéria Teórica).
Abaixo de 9 em qualquer matéria e eramos retirados do curso e ficávamos a cumprir o tempo de tropa obrigatória. Num teste, menos de 6 valores também era equivalente a irmos embora.
Felizmente no final do curso, fui o 4º classificado e pude escolher para onde queria ir. Também felizmente não havia vagas para os Açores.
O teste final de prática de morse até me correu bem e transmitir é mais facil do que receber, porque quando estamos a transmitir sabemos quais os “tás” e os “tis” que temos de usar, mas a receber era tramado.
Fomos sempre preparados a receber grupos de 5 letras variadas, aumentando a velocidade á medida que o curso avançava. Na parte final, já ouviamos “tis” e “tás” de rajada.
Mas no teste final, os “tis” e os “tás” tinham que ter lógica, por isso se falhasse uma letra pela lógica nós iamos lá. Só que nunca esperámos que o teste fosse feito com base em códigos.
E assim foi, eles perguntavam em código e nós respondiamos também em códigos.
Nunca mais me esqueço e tenho no sotão a folha de papel que usei de rascunho, no final do teste foi isto que recebi.
“Pagas um copo?” – fiquei parvo a olhar para isto e pensei que estava a receber mal.
Sem eu ter respondido, recebo mais informação, “Pagas ou não pagas um copo?”
OK, á segunda percebi e respondi em código. Tinha-me safado a mais uma.
Só depois deste teste final é que nos disseram que quem não se safasse aqui não terminava o curso. Eramos o ultimo curso a ter morse incorporado, a partir daqui na proxíma formação morse seria retirado.
Infelizmente, aqui um dos meus colegas não conseguiu ter sucesso.
Enquanto que uns celebravam e já pensavam para onde queriam ir, um deles fazia as malas para ir cumprir serviço obrigatório na BA5.
Hoje já não me lembro sobre quase nada de morse, e ia sendo lixado por causa dele para depois nunca mais o usar.