A 11 de Novembro de 1990 (Domingo) fui apanhar pelas 15H o cacilheiro para Lisboa.
De mala bem aviada, ia com guia de marcha para apanhar um comboio com destino ao Entrocamento.
Um pouco para minha surpresa acabei por saber que mais 3 amigos meus iam apanhar o mesmo cacilheiro e o mesmo comboio.
Só com 2 dias de antecedência é que soube que o P.Miguel, F.Gamito e D.Saragoça iam assentar praça também no dia 12Nov90 em Tancos (ex-BA3).
Já de noite, visto que aproveitámos o resto da tarde para conhecer o Entrocamento, entrámos na BA3 e fomos levados para a camarata. Deram-me um saco cama que cheirava tão mal, que não consegui dormir com o cheiro.
Na segunda de manhã ainda chegavam recrutas, mas pouco depois fomos levantar o nosso fardamento.
Como instrutor da recruta tive o Sarg. Ribeiro. Baixinho mas com muita genica e excelente preparação fisica. Logo na primeira semana de recruta comecei a detestálo. Não pela sua maneira de ser, visto que hoje e depois da recruta vi que ele nos preparou muito bem fisica e psicológicamente, mas pelo meu feito de acatar ordens e ser tratado como “escumalha”.
Como dizia, de manhã recolhemos a nossa roupa e a da cama.
Fizemos a cama, aprendemos como e o que fardar. Pouco depois eram horas de almoço.
Formámos (mal) e fomos almoçar. De tarde foi a doer.
Acreditem mesmo, foi a doer e muito.
Ainda me lembro do seu ar gentil, depois de almoço pelas 14h.
“- Bem! Vamos nos conhecer só um bocadino, OK?”
Começámos a correr e nunca mais parámos. Nas traseiras do aquartelamento tinha uma estrada alcatroada junto á pista de obstáculos que subia e terminava lá em cima (não tinha continuação). Durante 1h estivemos ali a subir e a descer. Pelo meio houve series de pulos de galgo, abdominais e flexões.
Agora, ainda eram 10 de cada vez.
No final da tarde, quando estávamos para terminar só nos disse:
“Vocês estão aqui porque querem. Os obrigatórios eu percebo, mas voluntários são tratados como cães. E os que aprenderem a ser domados, ficam cá! Isto hoje foi só metade de um dia, ainda faltam muitos não faltam.”
Se de manhã estava contente, ao final do dia estava farto! Pois é, todo o meu corpo doia e até para descer umas escadas tinha que ser apoiado.
Antes do recolher telefonei para casa e a minha mãe é que me atendeu, ela chorou e ainda hoje se lembra de eu ter dito que estava arrependido. Eu tinha 17 anos e até ali vivia muito agarrado á saia da mãe.
Mas isto foi o primeiro dia.
No segundo, continuou as corridas, flexões, abdominais e pulos de galgos. No final deste dia o corpo já estava no ritmo e comecei a gostar. A gostar não, a aguentar.
Corridas nocturnas, abdominais, tiros de G3, muito porrada (e levei mesmo uns murros na carola), mas digo hoje que TENHO SAUDADES daqueles tempos.
Mas se começou com grupos de 10, depois passou a grupos de 20, 30 e 40.
Entre muito sofrimento (que me levou a uma preparação fisica quase excelente) também houve muitos risos.
Ainda me lembro de estar na parada da BA3 e ver o CRISTO vir a correr das camaratas com a G3 toda desmontada. Um TEN começou a perguntar ao CRISTO se ele sabia quais as partes que uma G3 era constituida, então tirou a coronha e perguntava o que era, tirou o guarda-fogo e perguntou…
A meio disto toca para se formar, todos corremos para a formatura mas o CRISTO lá ficou com o TEN.
Pouco depois lá vinha ele com as partes da G3 nos braços! Claro, o Sarg sabia mas mesmo assim levou uma F*da e andou a fazer exercicio fisico para pagar o atraso e o desmanchar da G3. É que as partes ele sabia qual os seus nomes, mas montar isso era outro problema.
Claro que nós no pelotão nos esforçámos por não nos rir, mas acabámos tambem a fazer exercicio fisico porque 1 ou 2 (ou todos) se riram do mal do CRISTO.
As cartas das namoradas também davam situações caricatas.
Vi muita gente a correr á volta da parada com a carta da namora nas mão e a cantar :
” O MEU AMOR ESCREVEU-ME, FODEU-ME” e dava um beijinho na carta.
Um dia antes de jurar bandeira, o Sarg Ribeiro levou-nos para as traseiras de um edificio do aquartelamento e disse-nos em voz grossa :
“Todos os pelotões tiveram desistências (o que podia ser mentira), aqui estão todos. Alguem quer desistir?”
Todos nós respondemos que não, foram 50 flexões.
Voltou após as flexões a perguntar se alguem desistia.
Resposta negativa e foram mais 50.
Voltou a perguntar novamente, resposta do pelotão foi negativa.
Foi mais 50 (que eu pensei nunca conseguir).
No final, detrás de um caixote que já lá estava tirou uma garrafa de Whiskey e copos de plástico.
Sorrindo serviu-nos uma bebida e disse:
“Criei aqui um grupo filha da puta!”. Perante tal elogio, todos nós estávmos contentes.
Foi graças á sua competência e organização de exercicios fisicos que nós ficámos bem preparados.
Mas o motivo que me levou a não gostar dele, foi simples.
Antes de se formar, talvez na segunda ou terceira semana, perante um grupo de oficiais todo o pelotão estava a descansar. Ele vinha com o grupo de oficiais e perguntou-me:
“- Quem é o teu dono?”
“- Ninguem!” disse eu. Deu-me logo com o seu boné na minha cabeça. E deu bem forte com a pala, zona mais rija. Voltou a perguntar-me e eu respondi da mesma forma. Voltei a levar ainda com mais força e de modo a doer ainda mais.
Volta a perguntar-me uma terceira vez, pelo que tive de responder que era ele. Aqui o meu orgulho ficou ferido e por isso fiquei a não gostar dele.
Mas ele foi 5 estrelas quando fui internado na enfermaria, intoxicação alimentar devido á ração de combate estar fora do prazo. Pudera, lá dizia consumir antes de 1969 e estávmos em 1990.
Mas mesmo assim fiquei com ele atravessado e não fui a um jantar marcado com ele e todo o pelotão, isto quando já estávamos todos a frequentar o curso. Fui o unico a não ir, mas era puto e o meu orgulho mandava muito. Hoje vejo que fui mesmo infeliz e tive uma atitude de criança.
Durante o resto do meu tempo de tropa nunca mais o encontrei, sei que esteve em Monsanto após a BA3 ser extinta e a recruta passar para a Ota.